|LELO MACENA – Repórter
Foto: Alexandre Battibugli/Reprodução
Jogador que era a própria razão de ser da expressão ‘futebol-arte’, Edson Arantes do Nascimento completou ontem 70 anos de vida. Em pelo menos 15 deles, protagonizou lances espetaculares dentro das quatro linhas, transformando os gramados num território mágico: quem o viu em ação jamais esqueceu. Homem cujo corpo se movia no compasso da bola, em campo Pelé driblava, cabeceava, chutava e fazia gols como ninguém. Não por acaso, foi escolhido o Atleta do Século 20. Em Alagoas, recebeu aquela que é talvez a maior homenagem à sua memória – deu nome ao nosso principal estádio, o Rei Pelé, que por sinal completa 40 anos amanhã. Como essas histórias não podiam passar em branco, a Gazeta tratou de recuperá-las. Durante toda a semana, o repórter Lelo Macena coletou textos e lembranças e conversou com pessoas que tiveram a chance de vê-lo jogar ou de jogar contra ele. Numa palavra, imperdível.

Rei da cabeça aos pés
Maravilhado com a atuação magistral do atacante negro e franzino, ao apito final do juiz o repórter parte em busca de uma declaração para o jornal. Ao se aproximar, vê que se trata de um menino. “Quem é o melhor meia do mundo?”, pergunta o repórter. “Eu”, responde o moleque. “E o melhor atacante?”. “Eu”, dispara de novo. O repórter titubeia. Não sabe ao certo se está diante de um garoto arrogante ou de um predestinado.
Aquele negro franzino acabara de deslizar pelo gramado do Maracanã um futebol dos mais agudos e geniais. Fizera quatro dos cinco gols do Santos na vitória de 5 a 3 sobre o América do Rio de Janeiro, naquele mês de fevereiro de 1958, a poucos dias da convocação para a Copa do Mundo da Suécia. Num dos gols, saiu de sua intermediária, driblou seis jogadores e tocou por cima do goleiro. Uma verdadeira obra de arte.

Breve história de um reinado eterno
Os desavisados riam e faziam chacota quando um moleque magrinho, canelas finas e roupas folgadas, entrava nos campos de pelada de Bauru, no interior de São Paulo. Mas bastava o diabinho pegar na bola para o sorriso se desmanchar e dar lugar a uma expressão de admiração. A habilidade do menino Dico, como era chamado pela família, saltava aos olhos. Driblava, cabeceava, chutava e fazia gols como ninguém. Um verdadeiro assombro.
Quando Dico tinha dez anos, ficou com o coração partido ao ver o pai, o ex-jogador Dondinho, chorar quando o Brasil perdeu a Copa do Mundo de 1950 para o Uruguai, em pleno Maracanã. Como se vislumbrasse seu futuro, prometeu ao pai que daria um título mundial ao Brasil. Não demoraria muito – passariam-se apenas oito anos – até que ele enfim pagasse a promessa.

De cronistas a jogadores, o que disseram sobre Pelé
No tempo em que esteve em campo, Pelé foi fonte de inspiração com suas jogadas incríveis e seus bafejos de gênio. Arrancou lágrimas e gritos dos mais enrustidos e fez calar e engolir a seco os mais falastrões. Foi fonte inesgotável de pautas e crônicas para jornalistas e cronistas.
Deles partiram definições, muitas delas poéticas, sobre o futebol do Rei. A genialidade de Pelé foi capaz de instigar até o contido poeta Carlos Drummond de Andrade. Em crônica sobre o milésimo gol de Pelé, ele escreveu: “Difícil e extraordinário não é fazer 1.000 gols como Pelé. Difícil é fazer 1 gol como Pelé”.
Ao descrever uma jogada entre Pelé e Tostão, o craque revelado pelo Cruzeiro, o jornalista Armando Nogueira sentenciou: “A tabelinha entre Pelé e Tostão confirma a existência de Deus”. Ele mesmo, buscando definir poeticamente o Rei do Futebol, também escreveria: “Se Pelé não tivesse nascido homem, teria nascido bola”.

Para o repórter gigante, ‘ele’ era um extraterrestre
Foi durante a arrojada cobertura da Gazeta dos jogos da Seleção Brasileira nas eliminatórias da Copa do Mundo de 1970 que o jornalista Márcio Canuto teve a dimensão da arte do melhor jogador de todos os tempos. À beira do gramado, dividindo espaço com feras da crônica esportiva como Oldemário Touguinhó, José Trajano, Washington Rodrigues e Vital Bataglia, só para citar alguns, Canuto, então com 22 anos, se convenceu de que Pelé era extraterrestre.
“Eu vi um gênio capaz de jogadas inacreditáveis, de gols impossíveis, de dribles estonteantes, e era de carne e osso. O Pelé era realmente algo inacreditável”, diz Márcio Canuto, 64 anos, hoje radicado em São Paulo e um dos mais respeitados repórteres do quadro de jornalismo da Rede Globo.

Na memória, a sedução do futebol-arte
Repórter do canal pago ESPN Brasil, Helvídio Mattos, 59, era garoto, no início dos anos 60, quando viu Pelé jogar pela primeira vez. Antes de começar a partida entre Santos e Botafogo, os dois maiores times da época, pelo torneio Rio-São Paulo, o tio de Helvídio o levou para mostrar uns painéis nos quais apareciam imagens da conquista brasileira de 1958, na Suécia, colocados no hall do Estádio do Pacaembu.
“Olha só! Pelé, Pelé e Pelé. Três gols contra a França!”, destacou, apontando com o dedo, o tio de Helvídio. “Aquilo não saiu da minha cabeça, a maneira como meu tio falou do Pelé”, lembra Helvídio Mattos em entrevista por telefone à Gazeta.
Paulistano e filho de um torcedor do São Paulo, naquela noite Helvídio acabou arrebatado pelo time do Santos. “Lembro que o primeiro tempo terminou 2 a 1 para o Botafogo. No final, o Santos virou a partida e o jogo acabou 4 a 3. Nem me lembro se ele fez gol, mas saí de lá apaixonado pelo Santos e fã do Pelé. Ele virou meu ídolo, meu grande herói”, confessa o experiente repórter da ESPN, o primeiro no Brasil a cobrir uma Copa Africana de Nações, no Senegal, em 1992.

Quem mandou cutucar o Rei com vara curta?
O primeiro tempo acabou zero a zero. Dava a impressão de que o CRB, campeão alagoano de 1964, arrancaria um grande resultado contra o todo-poderoso Santos de Pelé e companhia. No começo do ano, o time vencera o São Paulo por 3 a 1 e arrancara um empate contra o Corinthians. Corria o ano de 1965 e o time paulista encaixara a cidade de Maceió em seu roteiro de amistosos pelo Nordeste. Era a chance que Alagoas tinha para ver de perto o time bicampeão mundial interclubes. Mas o placar parcial daquela tarde estava longe das goleadas aplicadas pelo timaço histórico.
Enquanto o Santos se encaminhava para o vestiário, a torcida ‘tirava onda’ com os jogadores. “Cadê o Santos!?”, gritavam os torcedores. Presente naquela partida, no Estádio Severiano Gomes Filho, o centroavante do CRB, Xavier, percebeu que os jogadores santistas se incomodaram com os apupos. “Nós, jogadores do CRB, ficamos na nossa. Não entramos na onda da torcida. Sabíamos da máquina que era o Santos, mas ainda tínhamos a esperança de arrancar pelo menos um empate”, conta José Augusto Xavier, hoje com 72 anos de idade.

O zagueiro alagoano que enfrentou o Rei
Dentro do vestiário, o volante Chicão, famoso por suas botinadas, procurou o zagueiro: “O Pelé disse que se você não parar de bater, ele vai te quebrar”. Alagoano, revelado pelo CSA, zagueiro de muita raça e vigor físico por quem os atacantes sentiam um misto de temor e respeito, Paranhos se preocupou com o recado de Pelé. Sabia que o ‘Negão’ enfezado não era flor que se cheirasse. Tinha a malícia de bater e sabia dar para quebrar. Em 1965, num amistoso em que o Brasil venceu por 2 a 0 a seleção da Alemanha Ocidental, o alemão Kiesman levou a pior numa dividida com Pelé. Voltou para casa com a perna no gesso.
Paranhos não disse nada a Chicão. Era o intervalo de Santos e São Paulo pela segunda fase do Campeonato Brasileiro de 1974. O jogo era disputadíssimo. Em campo, craques como o meia uruguaio Pedro Rocha, o atacante Mirandinha e o goleiro Waldir Perez, pelo São Paulo, e, além de Pelé, os tricampeões Edu, Carlos Alberto Torres e Clodoaldo pelo Santos. O jogo estava 1 a 0, gol de Pelé, depois de pênalti cavado pelo próprio. Enroscou-se nos braços do zagueiro Arlindo, foi ao chão e o juiz Armando Marques foi na onda.

No Estádio Rei Pelé, uma homenagem de concreto
Hospedados num hotel do Rio de Janeiro, o então governador de Alagoas, major Luís Cavalcante, e o professor Ib Gatto Falcão, à época secretário de Estado, preparavam-se para ir ao encontro do senador Teotônio Vilela, o pai. Reuniriam-se para definir um nome em Alagoas para assumir um ministério no governo do general Castello Branco. Antes de partir rumo ao encontro daquele que viria a ser conhecido como o Menestrel das Alagoas, a dupla foi abordada por um homem no hall do hotel.
Era o engenheiro paulista João Kair. Carregava debaixo do braço o projeto de uma grande praça de futebol. Oferecera dias atrás ao presidente do Corinthians de São Paulo e este recusara por causa do custo elevado. Sabendo que o governador de Alagoas se encontrava no Rio de Janeiro, Kair não perdeu tempo e tratou de oferecer o projeto a ele. O major Luís Cavalcante e o professor Ib Gatto Falcão gostaram do que viram. Conversaram durante um bom tempo, mediram prós e contras e ali mesmo fecharam negócio com o engenheiro. Ficaram tão entusiasmados que acabaram esquecendo do compromisso com o senador Teotônio Vilela, que ficou uma arara com o ‘bolo’ que levou dos conterrâneos. Naquele dia, como contou o professor Ib Gatto ao jornalista e historiador Lauthenay Perdigão, Alagoas perdeu um ministério, mas ganhou o Estádio Rei Pelé.

PARA SABER MAIS SOBRE O REI, CONFIRA NOSSA SELEÇÃO
PELÉ – MINHA VIDA EM IMAGENS
Com um depoimento autobiográfico pontuado por mais de 70 imagens, o livro condensa a narrativa do garoto franzino de Três Corações que se transformou no maior jogador de futebol de todos os tempos.
FICHA: Cosac Naify, 150 págs., R$ 140, em média
PELÉ 70
Repleta de ilustrações, esta obra bilíngue é uma homenagem à comemoração dos 70 anos de Pelé. Eleito o atleta do século, o ex-jogador de futebol completa 70 anos de vida
no aniversário de 40 anos da conquista da Copa de 1970, no México.
FICHA: Realejo/Brasileira, 159 págs., R$ 120, em média
NA GRANDE ÁREA
É uma reunião de 41 crônicas escritas por Armando Nogueira entre 1964 e 1966. Em seus textos, o cronista expõe todos os sentimentos de um torcedor de futebol, sejam eles de alegria, de paixão ou de desespero. “Tudo acontece na grande área”, afirma Nogueira já no texto que abre o livro. Publicado em 1966 pela Bloch Editores e esgotado desde 1996, Na Grande Área foi reeditado pela Lance! Publicações.
FICHA: Lance, 164 págs., R$ 40, em média
PELÉ – OS DEZ CORAÇÕES DO REI
“Exatamente como na arte, o que sobressaía era a sensação de espanto e de surpresa. Surgia o mito. Pelé é claro. Feito mito, ele continuava a ser, ainda assim, o mesmo menino. De volta ao Brasil, depois do título de 58, na recepção que o governador de São Paulo, Jânio Quadros, ofereceu aos campeões mundiais, quase ninguém o viu. Desinteressado pela festa, Pelé passou a maior parte do tempo escondido no zoológico do governador, sozinho, divertindo-se com as antas e os pavões. A infância do Rei ainda não terminara”. Eis um trecho do livro de José Castello, um dos mais belos textos sobre Pelé.
FICHA: Ediouro, 240 págs., R$ 40, em média
O NOSSO FUTEBOL
Um dos principais cronistas esportivos do Brasil, o jornalista Fernando Calazans reúne em livro mais de 80 crônicas produzidas ao longo de sua carreira. Os textos contam histórias sobre craques como Pelé, Garrincha, Didi e Nilton Santos. O ídolo Zico, além de Romário e Ronaldinho, entre outros, também são personagens das crônicas de Calazans.
FICHA: Mauad, 208 págs., R$ 35, em média

EM DVD
PELÉ ETERNO
Ano de produção: 2004
Direção: Aníbal Massaini
Duração: 121 minutos
O documentário apresenta a história de Pelé, gênio do futebol, tricampeão mundial, bicampeão mundial interclubes pelo Santos. Mostra também os gols importantes e os lances consagrados, além de recriar dois gols antológicos desta personalidade do esporte.
Em fevereiro de 1958, a poucos dias da convocação para a Copa do Mundo da Suécia, Pelé ‘embriagaria’ uma dupla de observadores formada por ninguém menos que Armando Nogueira e Nelson Rodrigues
O governador Lamenha Filho (E) e Pelé antes da partida que inaugurou o Rei Pelé, em 1970

NÚMEROS DE PELÉ
›› 1957 – Santos (17 gols)
›› 1958 – Santos (58 gols)
›› 1959 – Santos (45 gols)
›› 1960 – Santos (33 gols)
›› 1961 – Santos (47 gols)
›› 1962 – Santos (37 gols)
›› 1963 – Santos (22 gols)
›› 1964 – Santos (34 gols)
›› 1965 – Santos (49 gols)
›› 1969 – Santos (26 gols)
›› 1973 – Santos (11 gols)

Fonte: Gazeta de Alagoas
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